Duas mulheres para se admirar

Posted by glauciana on November 27th, 2009 in Coisas que eu gosto 1 Comment


Ambas têm histórias de superação, ambas baseadas na dor. Uma encarou a morte instantânea. Outra vive com ela um pouquinho dia-a-dia, há 12 anos. Ou então seria vida? Uma da morte se transformou em vida. A outra, da vida não deixa que se faça a morte.

Duas mulheres, que não conheço pessoalmente, mas que as acompanho virtualmente. Esse mundo, tão sem fronteiras, nos permite invadir até a dor do outro e se solidarizar com ela.

Admiro as duas e me encorajo com suas histórias a seguir firme na vida, que nos é tão perecível. Duas histórias diferentes uma da outra, mas que congregam de algumas semelhanças básicas: o amor e a força de vontade em continuar a caminhar com o mínimo de alegria e felicidade e a vazão de sentimentos pelas ferramentas da Internet.

Uma é Cristiana Guerra, que “conheci” no início desse ano. A outra é Odele Souza, que tomei conhecimento na semana passada. Dois gratos presentes que tive a honra de receber nesse ano: saber da história dessas duas mulheres e me motivar a valorizar a vida.

Cristiana, de quem eu já escrevi aqui nesse blog, é uma linda mulher de 40 anos e jeito de menina. Ela tem uma sensibilidade impressionante. Soube fazer da dor uma linda história de superação. E vive seus dias acreditando que pode, sim, ser feliz, apesar das peças que a vida insiste em lhe pregar.

Publicitária mineira, lançou em novembro de 2008 o belíssimo Para Francisco. O livro é resultado dos textos do blog de mesmo nome (www.parafrancisco.blogspot.com) que Cristiana criou alguns meses depois de perder o grande amor de sua vida.

O fato de perder o seu amor já é bastante triste, mas no caso de Cristiana os sentimentos foram agravados, porque Guilherme morreu dois meses antes do filho nascer. Cristiana estava grávida de 7 meses.

Em 17 de julho de 2007 Cristiana escreveu o primeiro texto, que deu origem ao blog. Ele nasceu da necessidade dela em contar a Francisco, o bebê, quem foi seu pai, como ele era, a experiência que viveram juntos. Tudo isso para que, um dia, o filho pudesse saber quem foi o seu pai.

Os textos ganharam rápido sucesso e o blog passou a ser lido por muitas pessoas, que se comoviam com a história doce e triste de Cristiana e Francisco. Da delicadeza dos textos nasceu o livro, pela Editora Arx.

Já Odele Souza tem 60 anos e vive com Flávia, sua filha de 22 anos, em coma vígil há 11. A menina, que se calou aos 10 anos, quando teve seus cabelos sugados pelo ralo de uma piscina, passa seus dias rotineiros apenas abrindo e fechando os olhos em sua cama. O que basta para que Odele dedique a ela cada minuto de sua existência: os destinos dessas duas mulheres estão totalmente entrelaçados.

É a mãe quem realmente está ao lado da filha nas 24 horas do dia. Apesar da dor profunda com que vive seus dias, Odele ainda encontra forças para sorrir para a vida: vez ou outra almoça com uma amiga, vai ao cinema, ao teatro, a exposições e lê bastante.

Essas duas mulheres guerreiras, Cristiana e Odele, encontraram uma forma de dar vazão à dor devastadora que invadiu as suas vidas: criaram blogs, nos quais compartilham suas histórias, tristezas, alegrias, conquistas. Há três anos Odele criou o blog chamado Flaviavivendoemcoma (www.flaviavivendoemcoma.blogspot.com).

Pela escrita, conseguem dar sentido a algo que é tão difícil de ser entendido e aceitado. E por essa mesma janela por onde se escapa a dor, também entra muita luz. Pessoas que nunca as viram, de alguma forma mostram sua solidariedade e as fazem bem. É a gota de esperança que elas tanto precisam para seguirem seus dias acreditando na vida e, sobretudo, nas pessoas.

* Todas as informações sobre Odele e Flávia foram retiradas da reportagem Saudades de sua voz, da versão eletrônica da Revista Época, e do texto Deus e a Eutanásia, da coluna Nossa Sociedade, ambos escritos pela repórter Eliane Brum.

* Já as informações sobre Cristiana Guerra foram obtidas pelos seus textos do Blog e Livro de mesmo nome, Para Francisco.

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A perecibilidade da vida

Posted by glauciana on November 26th, 2009 in Coisas que eu gosto 2 Comments

Que mania essa a nossa de achar sempre que a vida é controlável, planejável, até paupável? Eu, sobretudo, que organizo a minha mesa, que no início do mês vejo as contas a pagar e quanto vai sobrar, que planejo o que meu filho fará no fim de semana e quantas horas devo dormir por noite, percebi essa semana, como um tapa forte na cara, que a vida não é tão planejável e controlável como eu insisto em fazer que ela seja.

Consegui enxergar, assustada confesso, que ela tem seus rumos próprios, seus ciclos e acontecimentos naturais. E que eles vão ocorrer, independente dos meus planos, desejos ou calculadoras.

Na noite de terça-feira, me alonguei um pouquinho mais na faculdade, apesar do cansaço, e parei no carrinho de hot dog do Seu Antonio, tiozinho querido que faz um prensado dos bons. Antes de fazer o pedido, falei com meu Presente no celular e perguntei se ele já tinha comido. Como o bonitão estava faminto, me esperando voltar, engatei um papo gostoso com o tio, enquanto aguardava os três dogs pra viagem, embaixo de uma garoa que insistia em cair naquela noite.

Atipicamente, por forças do destino, da natureza ou de qualquer outra entidade bem superior a mim, fiquei um pouco mais na faculdade. Eu, que uso qualquer pretexto para vazar mais que rápido de lá, naquele dia me permiti bons minutos de papo com seu Antonio.

Dirigi pela marginal como sempre – no limite máximo da pista, que é 90 Km/hora – e nesse horário e naquele sentido – Zona Norte para Zona Oeste – ela é bem livre. Adoro esse momento, pois é ali que testo meus dotes de pilota. Fiz o caminho habitual, o chão estava molhado e a noite úmida. Eu, faminta e apertada para fazer xixi, pisando profundo no acelerador.

Duas esquinas antes da minha rua, os carros foram parando, mesmo com o farol verde. Meu instinto de motorista apressadinha já estava falando alto, mas notei que alguma coisa ocorria, porque os carros começaram a fazer o balão ali na rua Guaipá e a voltarem. Eu, não entendendo nada, pois não via polícia, nem bombeiro, nem CET, apenas os frentistas do posto de gasolina fazendo sinais insistentes para que os carros não passassem por ali. Ué, teria de fazer o que todos estavam fazendo. Quando eu chego até a esquina para fazer o balão é que sou assaltada por um dos maiores medos que eu lembro de ter sentido na vida.

Ali, na esquina, sem os carros na minha frente, vi bolas de fogo e fumaça no ceu, que vinham do quarteirão onde fica meu prédio!

Demorei dois dias a escrever esse post, porque não queria lembrar da sensação que foi ver aquilo. Eu não tinha certeza de onde vinha aquele fogo, mas tinha certeza que era grande, que vinha do mesmo espaço onde estava a minha fortuna: Eduardo dormia em sua caminha e Fabio estava em nosso apartamento me esperando.

Naquele momento, que não deve ter passado de alguns minutos, fiz o balão ao mesmo tempo em que encontrava meu celular na bolsa, liguei para Fabio, que não atendeu o telefone. Na ausência de seu alô do outro lado da linha, meu coração disparou ainda mais. Brotou dentro de mim um desespero que há muito tempo ou até nunca eu tenha sentido, de não saber o que ocorria com aqueles que são a principal razão da minha vida.

Não tive dúvidas: parei o carro no meio da rua e desci, descalça, para ir andando até lá e ver o que ocorria, já que a essa altura minha rua já estava interditada. Os segundos que separaram o alô do Fabio da minha segunda ligação e meus passos no meio da rua molhada, me faziam sentir apenas uma coisa: estou em uma situação, na qual não tenho controle algum sobre ela.

Felizmente, Fabio atendeu o telefone e me disse que o fogo vinha da indústria de produtos de higiene e limpeza em frente ao nosso prédio. Eu não tinha outra certeza a não ser que ele tirasse Eduardo dali e que todos estivéssemos juntos. Graças a uma outra rua que ainda não tinha sido interditada eu cheguei na garagem do meu prédio, já sentindo o forte calor que vinha do galpão totalmente em chamas à nossa frente.

E minha agonia cessou instantaneamente, como quando se joga água para apagar o fogo. Com o carro ainda funcionando, minha fortuna estava à salvo. Apenas com a roupa do corpo, Eduardo apenas de meias, sonolento, saímos dali. Só voltaríamos madrugada adentro, quando as chamas já estavam controladas, mas ainda os 24 carros de bombeiros trabalhavam na escuridão da queda de energia até o sol da manhã.

Não houve feridos, felizmente, mas as perdas materiais foram grandes. Na mesma madrugada, porém, meu egoísmo comemorava aliviado que minha família estava a salvo, sob a minha visão. E assim a vida continuou. Hoje, dois dias depois e todos os jornais inundados pelo incêndio na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo, tudo está normal na Avenida Mofarrej. Exceto, porém, o meu coração, que percebeu o quão perecível a vida é e que ela pode mudar a qualquer momento, a qualquer instante, independente de nosso controle.

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A edição de agosto da revista Crescer, que eu só li essa semana, devido à correria da minha rotina, me chamou a atenção por uma matéria com destaque na capa – “Qual é a melhor opção para a mãe que trabalha”.

Desde que recebi a revista, fiquei tentada em ir direto para essa reportagem. E hoje, vendo as 20 páginas de comentários da versão online da matéria, constatei que o título não gerou expectativas apenas em mim, mas em muitas mães leitoras de Crescer.

E porque? Provavelmente, porque essa seja uma neura que ronde a cabeça e consciência de todas as mulheres que um dia pariram. Como conciliar o trabalho [ou a falta dele] com a maternidade?

Desde que li a reportagem fiquei com a pulga trás da orelha, desculpem-me o clichê. Para escrever esse texto e clarear melhor as ideias, fui procurar o texto no site da Crescer. Eis que me deparo com as impressões de mais mães que leram a reportagem e fiquei surpresa por todas que comentaram terem tido a mesma percepção que a minha: as três personagens da reportagem fazem parte de uma pirâmide muito seleta do nosso país. As três aparentemente de classe média, que contam com a ajuda de babás, empregadas, avós, duas delas com maridos e uma divorciada.

Depois que me tornei mãe e passei a “viver” esse universo materno, encontro um sem número de trabalhadoras que madrugam, mandam seus filhotes ainda bebês para a creche municipal mais próxima, encaram trem + ônibus até o trabalho, retornam para a casa no finzinho da tarde, ainda têm de lavar a roupa, fazer a comida, dar atenção ao marido.

Existe uma receita de bolo para como conciliar o trabalho e a criação dos filhos? Creio que não. Talvez por isso que o coro seja uníssono nos comentários sobre a reportagem, no site da Crescer: “nos frustramos”. Isso porque esperávamos encontrar o bê-a-bá de como criar os filhos de forma satisfatória e ainda dar conta do trabalho, que para tantas de nós não é apenas uma opção de estilo de vida e sim uma necessidade.

Lembremos que uma boa parcela da sociedade brasileira tem seus lares gerenciados só por mulheres, muitas separadas, solteiras ou que foram abandonas pelos companheiros. Pois bem, não existe receita de bolo! E tenho, a cada dia mais, tentando pensar que cada uma de nós, mães, mulheres, trabalhadoras, temos nossa missão nesse mundo e, assim, os seus desafios. Não há receita de bolo, nem manual, nem formato… temos de dançar conforme a música, como diria a minha avó.

Portanto, a única coisa que eu digo é: tentemos abrandar a nossa culpa. Isso sim é algo que podemos tentar manipular… o resto é ir tocando como dá e não apenas escolhendo uma “opção” de trabalho, como sugere a reportagem. Isso porque, para a maioria esmagadora de trabalhadoras e mães do país, o trabalho não é uma opção e sim uma necessidade.

Fica a dica também para que jornalistas, pauteiros e editores tentem chegar mais próximo da realidade de seu público-leitor, para que não dê tiros n’água tão elitistas como foi essa reportagem. Eu, como jornalista, mãe, leitora e trabalhadora, me sinto à vontade para fazer essa crítica. E com conhecimento de causa.

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Nós podemos ter tudo?

Posted by glauciana on November 16th, 2009 in Coisas que eu gosto No Comments

familia

Estou aqui em casa, prestes a encerrar com bastante espera o meu fim de semana. Esse não foi um fim de semana como todos os outros. Desde algum tempo que não ficava sozinha, tendo a livre escolha de apenas fazer o que tinha vontade.

E esses dias, com meus amores na casa da avó, no interior, pude desfrutar de momentos só meus, apesar de ter a companhia de Luca aqui comigo. Foram três dias como aqueles tão comuns de quando eu era solteira.

Passei o sábado inteiro de pernas pro ar na beira da piscina, escutei as minhas músicas favoritas, dormi e acordei no horário que meu sono permitiu e não quando Dudu despertou. Até me permiti reviver a boemia, que ainda pulsa dentro de mim e me faz tão bem: encontrar uma amiga em um barzinho da Vila Madalena, antes reduto tão comum de meus finais de semana, já que morava nela e bastavam alguns passos para sentar em uma de minhas mesinhas preferidas.

E agora, alto da noite de domingo, reflito mais profundamente um sentimento que permeou todos os momentos de meu fim de semana sabático: como sou feliz com as escolhas que fiz!

A casa ficou organizada, mas sem vida. Era silêncio que meus ouvidos precisavam, mas eu gosto mesmo é de barulho de criança, de família, de Backyardigans no DVD. Essa vida que hoje é tão comum, imersa no dia-a-dia turbulento, corrido, barulhento e, por vezes, até estafado, não consigo sempre enxergar o quanto é disso que eu preciso para eu viver bem e feliz.

E o melhor de tudo? Eu ainda posso fazer as minhas escolhas! Essa é a melhor constatação. Hoje de manhã, em minha overdose de Sex and the City [assisti a 3ª temporada inteira] um dos episódios me chamou a atenção. Samantha comemorava com Carrie, Miranda e Charlotte seu novo apartamento, os novos contratos de sua empresa de Relações Públicas e a felicidade. Brindando com seus cosmopolitans, ela gritava a plenos pulmões: “nós podemos ter tudo”.

Confesso que ver aquelas mulheres tão independentes, morando em New York, cedendo a todos os prazeres de ter quem quiser na cama e quando quiser, sinto até uma nostalgia de meus tempos de livre demanda. Entretanto, no dia seguinte, Samantha acordou com uma gripe imensa e não tinha ninguém que pudesse lhe dar remédio e arrumar a cortina que despencou do teto e deixava sua manhã resfriada ainda mais arruinada. E chorava a companhia de alguém que pudesse lhe cuidar.

Podemos realmente ter tudo? Não, não podemos! Como eu sempre digo, em cada escolha há muitas renúncias. E eu tive a sorte e a lucidez de escolher um caminho muito bonito, que eu sigo trilhando bem feliz.

Senti falta da alegria de Eduardo, da casa bagunçada, dos brinquedos espalhados. Senti falta do meu amor, meu companheiro, meu amigo, meu amante. Ele, que está 100% do dia ao meu lado, me deixa saudade na ausência. Com eles, a minha vida tem o sentido que ela precisa para eu ser realmente feliz.

Não trocaria por nada meus dias caóticos, acelerados, cansados, minhas poucas horas de sono, meus almoços e jantares interrompidos, minhas saídas boêmias tão raras… não trocaria. E sei que poderia ter feito escolhas diferentes e até um dia as poderei fazer, porque a vida é cheia de ciclos.

Mas, nesse momento, mesmo com um universo rondando novamente as fraldas, as noites sem sono, o baixo romantismo de casal, os 15 quilos a mais de meu corpo, eu continuo afirmando para quem quiser ouvir: eu posso ter tudo aquilo que escolhi!

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Tristes eles

Posted by glauciana on November 5th, 2009 in Coisas que eu gosto 1 Comment

casal
Eu sempre escuto as pessoas falarem “estou presa a um relacionamento falido”, “não tenho filhos porque não quero me prender”, “com fulano eu não tinha liberdade” e tantas outras frases nas quais as palavras prisão e liberdade sempre estão no meio.

E fico me perguntando: porque os relacionamentos significam falta de liberdade para algumas pessoas?

Será que porque elas têm uma visão distorcida de liberdade? Será que porque só encontraram companheiros opressores durante a vida? Será que porque se freiam de fazer coisas e culpam o outro?

Realmente não sei a resposta, mas sinto algo estranho dentro de mim quando ouço falarem dessa forma. Até acho que em algumas situações exista mesmo essa falta de liberdade tão queixada. Há inúmeros casos de namoros e casamentos baseados na possessividade, no ciúme excessivo e até na poda da personalidade alheia. Eu mesma, no início de meu relacionamento, cheguei a sufocar meu Presente com cenas e atitudes possessas.

Há também situações mais graves, quando não só a liberdade do outro é tolhida, mas também o respeito deixa de existir. Quando a violência verbal impera e, quiçá pior, quando evolui para a física. Chegado nesse ponto, as pessoas não se toleram mais. Só veem uma forma de atingir o outro.

E aí vem a pergunta-chave: porque, então, não se separam?

Oras bolas, para mim é muito óbvio. Se duas pessoas se escolhem para ficar junto, para viver uma vida lado-a-lado, para compartilhar experiências, para formar uma família [ou não, porque ter filhos não é obrigatório entre os casais, em minha opinião, desde que isso seja de comum acordo entre ambos], se firmaram o compromisso voluntário de se relacionarem no amor, porque é tão difícil desfazer esse acordo quando ele não estiver mais sendo saudável a elas?

Sim, eu sei que estou sendo prática e utópica demais aqui. Talvez por nunca ter sofrido muito no amor e ter tido a sorte de encontrar o homem da minha vida aos 19 anos. Não quero parecer pedante, longe disso, só gostaria de tentar encontrar respostas que pudessem servir a tantas pessoas que eu amo e que vejo presas nessas prisões sem grades.

Sei que há muitas questões envolvidas, como a dependência – em muitos casos não só emocional, mas também financeira -, o apego à companhia do outro - “se ele, mesmo ruim, não estiver mais ao lado, quem ocupará esse vazio?” -, o medo da solidão – “ruim com ele, pior sem ele”, já que encarar a si próprio doi bastante e conviver com você mesmo, sem a bengala de jogar a culpa no outro, é bem complexo, cá entre nós.

Entretando, continuar se apoiando nesses subterfúgios e levar uma relação adiante por outros motivos que não o amor, a motivação de estar junto e o desejo sincero de compartilhar uma vida, é covardia. Isso, sim, covardia. Porque, amigos, não vejo pessoas presas ao pé da mesa, acorrentadas ao amor doentio do outro. A decisão de sair ou não da tal prisão, neste caso, está única e exclusivamente nas nossas próprias mãos.

Ok, eu sei eu sei que é muuuuuuito difícil romper relacionamentos. Entretanto, culpar o outro por sua falta de liberdade, por estar perdendo coisas na vida é, em minha visão, muito pior. Tristes aqueles que vivem nesse pesadelo. Tristes.

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Também sou como ela

Posted by glauciana on November 5th, 2009 in Coisas que eu gosto No Comments

mulher

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.

Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.

Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.

Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.

Mas o que sinto escrevo.  Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.

Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.

Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Com Licença Poetica – Adélia Prado.

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Ela me ensinou o que é o amor

Posted by glauciana on November 3rd, 2009 in Coisas que eu gosto 2 Comments

cor
Não precisei ir lá na Índia, tão longe, cruzando o oceano, para sentir um pouco da dor que carregam as viúvas. Vivi com uma boa parte da minha vida, que preservava aquela dor ali, intacta, como se ela nunca mais fosse capaz de sair de dentro de si. E talvez nem tenha saído mesmo.

Ela, Otília Ferreira do Carmo, linda, 28 anos, feliz, mãe de três filhos, dona-de-casa, como toda boa esposa do interior do Paraná, na década de 40. Ele, alto, magro, bonito, plácido, Jaime Araújo do Carmo, alguns anos apenas mais velho que ela. Pai, agricultor, marido de Otília há 10 anos.

Os filhos, três: Maria 10 anos, Lucas 8 e Leila 5. Crianças normais, felizes, da roça. Pés no chão.

Nesse fim de semana, olhos vivos e coração apertado, escutei a narrativa dessa história triste. A história de uma viúva e seus três filhos. Mais que isso, a história de uma viúva que nunca mais deixou o luto, mesmo que usasse o vestido mais alvo do guarda-roupa.

Logo após o almoço, ele se sentou na cadeira do terreiro em frente à casa, como de costume. Ela, lavando louça e as crianças brincando por ali. Ele, ninando a caçula, no merecido descanso antes de retornar para a lida pesada da lavoura. Ela, admirando o pai zeloso que ele sempre fora. O sol estava alto e ele se foi. Homem trabalhador não deixava de lado suas obrigações diárias. Ela ficou lavando louça e olhando pela janela, com a estranha sensação de que seria a última vez. Sexto sentido de mulher não falha.

Ele caiu, fulminante no chão, sob seu olhar.

No mesmo dia de sua morte, a comadre chegou com a fazenda preta para costurar o seu luto. Sem forças, coração costurado, apenas vestiu o vestido negro, golas altas, pregas soltas, tergal pesado para baixo do joelho e punhos apertando os pulsos. Ficaria assim para a vida toda. Coração em luto.

Sem renda, sem marido, sem condições de criar os três que lhe sobraram, partiu para a casa dos pais, para uma pequena cidade do Paraná, Cornélio Procópio. Enquanto as irmãs, ainda solteiras, costuravam seus próprios vestidos balonês, se pintavam de carmim e passavam a lavanda para a matinê dos bailes de domingo, ela vestia o seu luto e não sorria, pois já tinha nem mais dentes. Todos foram arrancados junto com o amor de seu lado. Não tinha maquiagem nem cor alguma que pudesse fazer com que seus dias pudessem ser mais alegres.

E foi assim por meses a fio. A filha mais velha, Maria, minha madrinha, quem me contou essa história na cozinha apertada do apartamento da minha mãe, nesse último feriado, me passou um pouquinho do que sua mãe vivia:

- “Era uma tristeza sem fim. Não podia mais continuar daquele jeito, tinha que dar um jeito de se alegrar de novo e ter algum ânimo para cuidar de nós, que não tínhamos mais ninguém além ela” – contou-me minha madrinha Maria.

Até que o luto foi encerrado e a camisolona preta foi deixada de lado, não sem antes uma conversa profunda, fechada a chaves, no quarto, com o tio que era padre. Ele foi chamado por sua mãe para que pudesse finalizar a parte do luto e que Otília pudesse se despir daquele peso negro que usou por tantos meses. A tentativa desesperada de arrancar do peito de sua filha mais velha a dor da viúvez precoce. Tentativa vã. Essa tristeza nunca a deixou.

Os meses se passaram, a vida continuou – como tinha de ser -, Otília e os filhos saíram da casa dos pais e ela começou a lavar e passar as roupas dos médicos cariocas que foram para Cornélio trabalhar na Santa Casa de Misericórdia. Alvejava as vestimentas, como se quisesse deixar sua própria vida branca novamente.

O sustento vinha. Se bem que Otília e as crianças nunca foram desamparados. Talvez fizessem por ela o que o marido sempre fizera em vida. Todos os domingos, com sol ou chuva, Jaime enchia os cestos da charrete com frutas que brotavam de seu pomar e rumava, areias finas, para a cidade. Tirava o domingo para adoçar o dia de suas viúvas. Deixava frutas para aquelas que já não tinham em quem confiar. Como se quisesse garantir o cuidado com sua própria viúva, antecipou o favor para que fosse pago anos mais tarde com sua Otília.

E a vida seguiu seu rumo, Otília foi nomeada funcionária pública da Santa Casa, trabalhou ali durante anos. Os filhos entraram na labuta logo cedo: Maria teve a primeira carteira assinada aos 14 anos. Limpava o SESC para que outras crianças de sua idade pudessem se divertir. Trabalho difícil, mas ela se lembra dele com um sorriso no rosto e brilho nos olhos:

- “O trabalho era até pesado, mas ali tinha uma radiola, onde colocávamos sete discos, um atrás do outro, e ela ia tocando todos. Eu escolhia os que mais gostava e limpava o chão feliz, escutando música e dançando” - lembra Maria dessa fase tão boa e tão difícil, ao mesmo tempo, de sua vida.

Otília se abriu para a vida novamente. Abriu seu coração para as pessoas que cruzavam o seu caminho: criou minha mãe e uma outra criança, tia Neide, como se fossem suas filhas. Ela, que já tinha três filhos e não tinha mais marido, viu na criação de mais duas meninas a vida brotar novamente.

O que não brotou nunca mais, em contrapartida, foi o amor por outro homem. Otília morreu, aos 63 anos sem nunca mais ter tocado outro homem. Não se permitiu amar novamente. Não se permitiu viver novamente. Foi mulher de um homem só, manteve os votos do casamento intactos, até quando o tempo quis.

Eu tive a sorte de passar 12 anos da minha vida ao lado dessa mulher forte, guerreira, aprendendo com ela a arte de viver e de ser mulher. Ela, que criou a minha mãe, também dedicou muitos anos de sua vida a mim, quando os filhos já não moravam mais com ela. Que pena que o tempo não me permitiu ouvir essa história pela sua boca. Mas, eu a sentia de alguma forma.

Talvez em seu modo pudico de ver o mundo. Talvez em suas roupas discretas e sem cor. Talvez na maneira recatada de se comportar. Talvez na dor que insistia em bater em seu coração nas noites frias de julho, quando ela juntava sua cama na minha para dormirmos juntas.

Otília foi a mulher mais nobre que eu já conheci em toda minha vida. Que sorte a minha poder ter aprendido com ela a arte de ser mulher e de ser, de alguma forma, feliz.

* Essa história também é, de certa forma, minha, pois eu compartilhei da vida de Otília durante muitos anos. Ela foi a mulher que me ensinou a comer, a andar, a enxergar o mundo. Eu, que mesmo não tenho o seu sangue, tenho o seu sobrenome, entretanto, todos os nomes foram alterados. Não por falta de amor ou respeito, mas por um cuidado necessário para evitar que esse texto tenha o seu objetivo – que é enaltecer a trajetória dessa mulher – distorcido.

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Segredos do mar e da vida

Posted by glauciana on October 21st, 2009 in Coisas que eu gosto No Comments

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Seu Vasco, como é chamado pelos colegas o jangadeiro Vasconcelos, não tem o perfil mais comum do homem alagoano: tem os olhos verdes, tal qual aquele mar que ele veleja diariamente há 7 anos, desde que começou a trabalhar com a jangada, os cabelos de um tom castanho claro e a pele avermelhada, devido ao sol diário que seu escritório a ceu aberto lhe propõe.

Com 48 anos e se sentindo “judiado”, em suas próprias palavras, Seu Vasco já fez muita coisa na vida, incluindo os sete filhos de duas esposas diferentes. E, sem esconder a modéstia de bom cabra nordestino, disse sorrindo encabulado, que “ainda poderia fazer mais”, entretanto optou por viver apenas ao lado da terceira mulher, que já tem 44 anos e não consegue mais engravidar.

- “Ter filho é coisa séria. Não dou moleza para os meus meninos, não. Se eles fazem algo que me desagrada, falo uma, falo duas, com energia. Assim, não tem erro” - disse enfático Seu Vasco, enquanto jogava água na vela da jangada. Segundo ele, aquela água é a gasolina da embarcação, já que faz o tecido ficar pesado e não filtra o vento. O que faz, por consequência, que ela deslize mais rapidamente pelas águas mansas da Pajuçara, praia urbana de Maceió.

Homem conhecedor do mar, Seu Vasco desde os 9 anos de idade já desvenda os segredos das marés. A tradição familiar da pesca o fez homem navegador, que respeita os limites do ofício que escolheu.

- “Esses barquinhos aí no meio são para pesca. Passamos 5 noites e 4 dias em alto mar, pescando”, falou todo orgulhoso.

Composto por três pescadores, praticamente não dormem nessas jornadas que fazem a mar aberto. Primeiro pelo espaço reduzido da embarcação, segundo porque devem manter os olhos bem abertos aos perigos que ameaçam a nau, que podem ser desde uma virada da maré até um grande navio vindo em direção ao barco, o que faria todos irem pro fundo.

Aliás, em apenas 20 minutos percorrendo os dois quilômetros que separam as areias da praia de Pajuçara às piscinas naturais próximas da barreira de corais, Seu Vasco nos contou histórias dignas de pescadores experientes.

Lembrou de uma vez que estava no mar, durante essas jornadas pesqueiras, e uma baleia jubarte – que nos meses de verão vem para as águas quentes daquelas bandas para amamentar os filhotes – passou levando a corda que segura a âncora do barco. Uma corda quilométrica sendo arrastada pelo mamífero gigante. A narração de Seu Vasco lhe daria a vaga de roteirista de um filme do Steven Spielberg. Sorte dos turistas que não havia um olheiro hollywoodiano por aquelas águas, senão ficariam sem o carisma do jangadeiro. Todos a salvo depois de muito lutar contra a baleia, graças a um dos pescadores que cortou a corda e o animal levou a âncora para seu passeio nas águas do oceano.

Contador de histórias, Seu Vasco cativa o turista e não precisa de esforço para ser simpático. O é por natureza. E desafia as leis da gramática, conseguindo se comunicar até com quem vem de longe para seu litoral:

- “Aparece muito turista estrangeiro por aqui e a gente dá um jeito de se comunicar. Inventa uma língua nossa. No final das contas, todo mundo se entende” – brinca.

Sujeito do mar, homem simples, profundo conhecedor das marés. Seu Vasco passou conosco pouco mais de duas horas – o período de jangada e enquanto nos esperava brincar nas águas baixas da piscina natural – mas deixou em nós a lembrança de quem vive a vida de forma muito simples, agradecendo diariamente à Deus o sustento que sai daquelas águas.

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cela

Hoje de manhã me lembrei de uma experiência diferente que tive na minha caminhada nesse mundo. Em um determinado momento, a vida prega uma daquelas peças nas pessoas que amamos e isso nos faz enxergar alguns horizontes que, até então, eram muito diferentes dos nossos.

Em um período da minha vida eu e minha família vivemos a dura realidade de uma penitenciária. Eu nunca estive presa, mas acabei conhecendo – talvez superficialmente – um pouco do que passam os detentos.

Me lembro que fui poucas vezes até a delegacia municipal de uma cidade no interior de São Paulo, talvez umas quatro ou cinco. Era sempre em um determinado dia da semana e essas visitas eram muito tristes, pois as mulheres e familiares dos detentos chegavam cedo, muito cedo, se aglomeravam no pátio da delegacia com os filhos saudosos dos pais, com muitas sacolinhas de quitutes e amor.

Em hora certa, a carceiragem abria os portões e todos nós entrávamos no pátio, onde eles tomavam sol e jogavam futebol diariamente. Todas as celas tinham as janelas para aquele pátio. E, durante a semana, a visita era assim: eles dentro das celas, se espremendo na janela, e nós embaixo, com o pescoço levantado tentando falar com eles. A janela não era tão pequena, mas para uns oito homens empoleirados ali e mais tantas pessoas embaixo, tentando arranjar um espacinho para falar com eles… era uma situação, no mínimo, desconfortável.

A maior parte deles, os que tinham os delitos mais leves, já tinham sido julgados e cumpriam a pena ali mesmo. Os que ainda aguardavam a sentença, provavelmente seriam levados a penitenciárias maiores, estaduais. E esses sim deveriam ter cometido crimes mais sérios, já que precisariam de maior segurança que uma delegacia municipal poderia oferecer.

Ali, naquela cela, junto com a pessoa que amávamos, tinha um garoto da zona rural da região que cumpria pena de 1 ano e 7 meses por ter roubado um porco de um caminhão de transporte animal. Outro, por ter roubado uma bicicleta na padaria. Mas, também havia dois irmãos, de descendência árabe, que eram os cabeças de uma grande organização de receptação de carretas. Tinham largo histórico de roubo de cargas e assassinato de motoristas.

Independente de seus crimes, eram todos seres humanos, que ali naquelas circunstâncias, no momento da visita, só queriam atenção, só queriam saber do mundo lá fora e matar a saudade daqueles que amavam. As famílias, angustiadas, sofriam e se consumiam por eles lá dentro. E encontrávamos todos os tipos de classe social: os mais pobrezinhos, que chegavam com uma marmitinha embaixo do braço, até famílias com carros importados chegando no estacionamento da carceiragem. Lá dentro, eram todos iguais.

Mamãe fazia todas as suas vontades. Lembro-me que entrávamos para a visita munidas de isopores com os mais diversos quitutes: lasanha, esfiha, rosca doce, enroladinho de salsicha, pizza. E mamãe, que sempre teve bom coração, pensava em todos da cela quando elaborava o cardápio. Então, em véspera de visita, aquela cela era a mais animada de toda a delegacia, pois a “filha do tio” levaria coisas gostosas para todos. E os regalos não eram apenas gastrômicos. Mamãe levava cigarros para um, palito e cola para o outro que fazia artesanato, sabonetes para aquele mais asseado. Por conta desses mimos, eles poupavam aquele que amávamos dos serviços mais pesados na cela. Diziam para nós, ali da janelinha da cela: “não deixamos o tio limpar o chão nem limpar o banheiro”. Engraçado com as pessoas, até  – talvez na circunstância mais dura de suas vidas – ainda conseguem ser solidárias.

Eu era nova, devia ter uns 13 ou 14 anos, mas já tinha algumas percepções e consigo me lembrar claramente de muitas dessas situações e dos rostos daqueles homens. Nós, que vivemos aqui do lado de fora, que sempre tivemos boas oportunidades, até ousamos julgar aqueles que cometem crimes e devem pagar por eles, mas nos esquecemos que – de repente – são apenas meninos famintos que roubam um porco para alimentar a família em uma roça qualquer, perdida no interior de São Paulo. E sofrem, e sentem saudade e se arrependem de seus feitos.

Havia também a visita do domingo. Não me lembro ao certo, mas me parece que ocorria de 15 em 15 dias. Dessa, eu não tenho tantas lembranças, porque mamãe nunca me deixou entrar. Ela queria me poupar das humilhações pelas quais tinha de passar para entrar no pátio da delegacia e poder estar perto daquele que amávamos.

Além de chegar de madrugada e pegar uma boa senha – senão não entrava mais, depois que lotava o número determinado de visitas – era necessário passar pela revista pesada antes de entrar no pátio. Era necessário tirar toda a roupa, as carceireiras revistavam os bolsos das calças, torciam as roupas na busca de algum objeto que pudesse ser parecido com uma arma ou droga. Mas, o ponto máximo da hostilidade era o momento de abaixar a calcinha e agachar três vezes para que, se houvesse algo acomodado na vagina, com esse movimento caísse. Mamãe me poupava dessa parte, mas ela estava lá, cabeça erguida passando por tudo para que pudesse levar um pouquinho de alegria para aqueles que viam seus dias se passar quadrados.

Foram apenas alguns meses de sofrimento. Por sorte, ele acabou rapidamente, mas deixou em mim essa lembrança: de que, apesar dos delitos e crimes que as pessoas cometem, no fundo são todos seres humanos que carregam uma parcela de sentimentos. Que sofrem, que se arrependem, que talvez não tiveram outra escolha. Aprendi a olhar o mundo com um pouquinho menos de julgamento.

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O que ensinamos a nossos filhos?

Posted by glauciana on September 16th, 2009 in Coisas que eu gosto 2 Comments

briga
Hoje de manhã, antes de vir para o trabalho, passei na padaria comprar o café da manhã e, enquanto esperava ficar pronto, a televisão – que transmitia o programa Mais Você, da Ana Maria Braga – me chamou a atenção.

A jornalista Sandra Annenberg mostrava para Ana Maria as principais notícias do dia e eu fiquei estarrecida assistindo à TV. A reportagem mostrava um vídeo feito pelo celular de um adolescente, na saída de uma escola pública de Araçariguama, interior de São Paulo. O filme era uma briga entre duas garotas.

Até aí, acho que até dá para considerar normal. Eu, baixinha-esquentadinha-que-sempre-fui perdi as contas de quantas vezes briguei na escola na infância e no início da adolescência. O jargão famoso e assustador era o “te pego na saída”. Quando diziam isso para mim, eu tremia por dentro, mas não desistia. Encarava a garota e brigava. Quando via que o negócio ia pegar pro meu lado, saia correndo. É, os baixinhos correm como coriscos. Não abaixava a cabeça por nada, mas também não era tonta de apanhar.

Entretanto, o que me deixou assustada vendo a reportagem hoje de manhã, é que a mãe da garota, Meire Aparecida Fernandes, estimula a briga da filha e não deixa que os outros alunos separem. A voz dela também aparece no vídeo feito pele telefone celular.

As frases dela, aos gritos, são:

- Não entra ninguém

- Não vai entrar ninguém

- É minha filha. Ela vai resolver

- Mete o pé. Que nem eu te ensinei!

- Vai. Mete um soco na cara!

- Seu pai tá no carro

Uma aluna tenta intervir, dizendo para separar a briga e a mãe continua gritando:

- Não vai separar não que a filha é minha

O filme termina antes da briga acabar e, aparentemente, não foi nada grave. Procurada pela reportagem da TV Globo, a mãe da garota afirma que, sim, que deveria ter incentivado a briga, pois não criou uma filha para apanhar na rua: “Incentivei, sim. Acho que qualquer mãe, qualquer pai, se visse a filha no chão, por baixo, ia agitar, sim“.

Meodeos, como assim? Eu até brigava na rua, tinha as minhas pendengas escolares, mas tinha que manter escondidíssimo dos meus pais, pois se eles soubessem que eu estive envolvida em alguma briga, aí sim que eu apanhava mesmo em casa e ficava em severos castigos. Porque, apesar de sermos bem pobres, de eu ter estudado todo o ensino fundamental em escola pública e morarmos na periferia, na Cohab, a violência era algo que meus pais abominavam. E não me estimulavam, claro!

O que parece, pela fala da mãe, é que esse conceito de resolver as coisas na pancada é bem normal e faz parte do modelo de educação. A sua naturalidade ao dar a entrevista me pareceu que realmente isso é comum para ela. Será que eu ainda vivo num mundo muito babaca ou as pessoas estão encarando a violência assim mesmo? Qualquer coisa merece um pega-pra-capá? Que medo! Não é assim que eu pretendo educar meus filhos, definitivamente!

Meire Aparecida Fernandes, a mãe da menina agressora, é responsável pelo transporte público da escola onde a filha estuda. O prefeito de Araçariguama, Roque Hoffmann, disse à reportagem que ela será demitida da escola. Mais que isso, acho que o caso aqui é outro. Não sei o que caberia para essa mulher, mas essa punição não resolve a forma como ela enxerga a vida. Esse é o pior e eu não sei se tem conserto. Tristíssimo!

Clique aqui para ver o vídeo, que mostra a reportagem completa.


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